segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A moda das reclamações!

Vivemos uma época de problemas mal resolvidos, frustrações e incapacidade para controlar a ansiedade dos tempos troikianos. A expressão facial mudou, os dentes são cada vez mais amarelos, as olheiras adensam-se e as sobrancelhas caem sobre os olhos sob efeito da austeridade. Gritos e mais gritos, costas voltadas, cochichos sobre a vida alheia e a repudiante cultura do individualismo. Esta é a imagem de um país à beira de um ataque de nervos!

Integrada nesta cultura do pânico está a moda das reclamações. Elas reproduzem-se como coelhos. Agora cada vez que há um espirro há uma reclamação. Se o vizinho do último andar cheira mal dos pés, há uma reclamação. Se chover, reclama-se. Se faz sol, reclama-se na mesma. Não se sabe a quem e muito menos porquê, mas reclama-se!

Os enfermeiros não são excepção. Aliás, se há classe profissional mais apetecível são os enfermeiros. Trabalham em jornada contínua, cansam-se enquanto os outros descansam, salvam vidas como poucos, ocupam a função de dois ou mais colegas que continuam a emigrar exponencialmente, são a classe responsável pelos doentes mais tempo durante o dia e são submetidos a situações de risco em condições por vezes desumanas. O benefício é sempre superior ao prejuízo causado, mas à mínima nódoa serão rotulados de incompetentes e culpados! Uma injustiça tremenda que me aflige ainda mais do que qualquer injustiça. 

A acrescer a isto, ainda se assistem a situações de falta de comunicação e conclusões precipitadas dos reclamantes típico de um país de cegos, surdos e mudos. Não interessam esclarecimentos, interessa sangue, numa punhalada pelas costas sem dó nem piedade.

Felizmente, piedade é algo que tenho. Compreensão também, de forma a situar-me na realidade que tenho e adiar o sangue desejado. E a realidade que temos é um país de pouco amor e muito ódio e enquanto não invertermos esta tendência continuaremos a ser um país de tristes à procura da solução para os problemas da carteira. A austeridade económica chegou recentemente, mas foi apenas o reflexo da prolongada austeridade intelectual que grassa nas mentes de muitos portugueses.

Por fim, deixo uma sugestão. Em vez de reclamações, adiram à moda das gratificações. Um dia fiz uma por escrito, curiosamente no mesmo livro das reclamações (alguém sabia disto?), e posso-vos dizer que foi das noites em que dormi melhor. Obrigado pela atenção!

4 comentários:

Eli disse...

Estava a ler o texto e pensei precisamente nisso: devia-se agradecer mais e reclamar menos.

E os enfermeiros, que fazem um trabalho tão digno para o qual eu não teria o menor jeito ou vocação, deveriam ser alvo de sorrisos diários, recompensadores de tão nobre entrega.

:)

Alexandra disse...

Andam esquecidos, poucos querem ser tulipas de um jardim... apenas desejam ser "colhedores"!

nikita disse...

Curiosamente penso o mesmo :-)
Infelizmente as pessoas preferem agredir ao invés de retribuir o bem que os outros fazem, a simpatia com que são acolhidos, o sorriso com que são recebidos, enfim, tanto de bom que se dá e nem sempre surte o mesmo efeito...

Gostei.

Raven disse...

A vida não tem de ser necessariamente negra. É certo que se encontra longe de ser branca e luminosa, mas tentemos ver o cinzento. E eu que o diga, numa altura em que luto para tentar sorrir todos os dias, mas confessando-me já imbuida desse espirito cabisbaixo de reclamação.